O que são as COPs do clima e o que esperar da próxima, na Turquia
Este ano, entre 9 e 20 de novembro de 2026, a Turquia recebe a COP31 — a 31ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. E se você pensa que a COP é só mais um evento de sustentabilidade, com painéis e discursos sobre o clima, está na hora de rever esse conceito. A COP é, antes de tudo, uma iniciativa de articulação conjunta entre praticamente todos os países do planeta — e entender como ela funciona ajuda a entender por que ela importa tanto para quem trabalha com economia circular, resíduos e reciclagem.
A sigla COP vem de "Conferência das Partes", e sua origem remonta à Rio-92 — a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992. Foi ali que nasceu a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), tratado que hoje reúne quase 200 países signatários. A primeira COP propriamente dita aconteceu em 1995, em Berlim, e desde então o encontro se repete anualmente, sempre em um país-sede diferente, com a presidência rotativa entre as cinco regiões geográficas da ONU.
Na prática, a COP não é um evento isolado: é o ponto de encontro anual de um processo de negociação multilateral contínuo, que segue funcionando (em bastidores, grupos técnicos e reuniões intermediárias) o ano inteiro. É nesse encontro que os países revisam compromissos, negociam novos textos e tentam avançar — com muita dificuldade, diga-se — em consenso sobre como enfrentar a crise climática.
De negociação diplomática a ecossistema multissetorial
Se nos primeiros anos a COP era essencialmente um espaço de diplomacia entre Estados, isso mudou bastante com o tempo. Hoje, o setor empresarial tem presença forte e crescente, e o próprio formato do evento reflete essa transformação: toda COP é dividida em Blue Zone e Green Zone.
A Blue Zone é a área sob gestão da ONU, com acesso restrito a delegações oficiais, credenciados e imprensa — é lá que acontecem as negociações formais dos textos de tratado, os chamados documentos L, que se tornam decisões oficiais da conferência. A Green Zone, por outro lado, é aberta ao público e concentra a agenda paralela: pavilhões de países e empresas, painéis, lançamentos de iniciativas e um volume grande de discussões que não entram no texto oficial, mas influenciam diretamente o clima político e a pressão social em torno das negociações.
Essa divisão explica por que a COP parece, ao mesmo tempo, um evento diplomático fechado e uma espécie de grande feira de sustentabilidade — porque ela é as duas coisas. E é justamente essa camada paralela que começou a abrir espaço para temas como economia circular, bioeconomia e gestão de resíduos ganharem protagonismo nos últimos anos.
Vale lembrar, também, que o destaque crescente da COP não vem só da ampliação de quem participa — vem, sobretudo, do agravamento da própria situação climática. No limite, a pauta de clima é sobre garantir um planeta habitável para humanos, fauna e flora. Não é, portanto, um tema que interessa apenas a quem trabalha com economia circular, energia ou meio ambiente: é uma pauta que atravessa todos os setores e todas as pessoas, porque o resultado dela afeta a todos.
O que esperar da COP31, na Turquia
A COP31 chega depois da COP30, realizada em Belém — a primeira sediada na Amazônia — que resultou no chamado Pacote Político de Belém, um conjunto de decisões sobre transição justa, adaptação, financiamento climático e participação de povos indígenas e comunidades locais. Boa parte da pauta da Turquia deve ser justamente destravar o que ficou pendente nesse pacote, especialmente em relação a financiamento climático e metas de adaptação.
Um detalhe curioso desta edição: a presidência turca chega em um arranjo negociado com a Austrália, que também disputava a sede — o entendimento entre os dois países foi decisivo para viabilizar a realização da conferência em território turco. É um bom lembrete de que até a escolha da sede de uma COP é, em si, resultado de negociação diplomática.
Vale resgatar também o espírito deixado pela COP30, sediada no Brasil: o mote da conferência foi "mutirão" — palavra que o Brasil ensinou aos estrangeiros, porque não existe tradução direta em outras línguas para o que ela representa. E não é só uma curiosidade linguística: mutirão traduz exatamente o espírito necessário para lidar com a pauta climática — um esforço coletivo, onde cada um contribui com o que pode, para um resultado que só existe se for construído junto. É esse espírito que a COP31 herda e precisa sustentar.
Onde a economia circular entra nessa conversa
Um dos sinais mais claros de que a agenda climática se ampliou foi a própria COP30 dedicar um dia temático específico a adaptação, cidades, resíduos, bioeconomia, economia circular e turismo. Isso não é acaso: gestão de resíduos e reciclagem deixaram de ser vistas como pauta puramente ambiental e passaram a ser reconhecidas como parte da infraestrutura climática — afinal, lixões são fontes relevantes de metano, cadeias produtivas mais circulares reduzem a pressão por extração de recursos virgens e resíduos tem um vínculo direto com emissões.
Para quem atua no setor de créditos de reciclagem e economia circular, como é o caso da eureciclo, isso significa acompanhar de perto como esses temas evoluem dentro do processo da COP — porque decisões tomadas nesse tabuleiro, ainda que pareçam distantes do dia a dia operacional de reciclagem no Brasil, moldam o ambiente regulatório e de mercado em que empresas, catadores e operadores de reciclagem vão operar nos próximos anos.
Antigamente, a pauta ambiental parecia reservada a ativistas. Hoje, ela é de todos aqueles que querem ter um futuro — um planeta habitável. Pode parecer uma afirmação extrema, mas colocar as coisas em perspectiva ajuda a entender a real importância desse evento: as questões climáticas são transversais e atravessam as fronteiras que nós mesmos criamos para dividir países. Nada mais justo, então, que todos se reúnam para discuti-las. A COP é exatamente esse lugar e esse momento — onde negociações e discussões de meses, anos e décadas culminam em algo concreto. Fica o convite para o debate.
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