Economia Circular

Quem sustenta a economia circular está na linha de frente da crise climática

Publicado em
20 August 2026

Por Tânia Sassioto e Jaqueline Nichi.

Participamos do painel “Reciclagem em Tempos de Crise Climática”, realizado durante a SP Climate Week 2026. 

A conversa reuniu perspectivas que raramente estão na mesma mesa: organização de catadores com Telines “Carioca" Basílio, presidente da Coopercaps e Conatrec, investimento de impacto com Bruna Constantino, cofundadora da Positive Ventures, governança climática com Jaqueline Nichi, fundadora da ComuniClima, e empreendedorismo de base e economia circular com Saville Alves, fundadora da SOLOS e Tânia Sassioto, head de marketing da eureciclo. 

A questão central foi: como proteger trabalhadores e a cadeia da reciclagem em um mundo cada vez mais vulnerável ao clima?

A discussão mostrou que calor extremo, chuvas intensas e enchentes não afetam apenas a logística da reciclagem. Também interferem nas condições de trabalho, na renda dos catadores, na operação das cooperativas e na capacidade dos municípios de manter os serviços funcionando.

Para quem sustenta a cadeia da reciclagem, a crise climática já é presente e já tem preço.


Clima não é uma variável externa à renda

Carioca chamou atenção para uma característica básica da atividade: quem trabalha com reciclagem, seja em cooperativa ou nas ruas, a atividade não tem salário fixo. Toda a renda depende da quantidade e do valor do material coletado.

Quando uma chuva intensa impede o deslocamento, alaga um galpão ou danifica materiais armazenados, a consequência é imediata. O mesmo ocorre com períodos de calor extremo, que aumentam o desgaste físico e podem reduzir a capacidade de trabalho.

O problema não se restringe à reciclagem. A Organização Internacional do Trabalho estima que 2,41 bilhões de trabalhadores estejam expostos anualmente ao calor excessivo no mundo, mais de 70% da força de trabalho global.

A adaptação climática, portanto, não pode se limitar a obras e infraestrutura urbana. Para essa cadeia, também envolve condições adequadas nos galpões, acesso à água, ventilação, proteção de materiais, protocolos para situações de calor e chuva intensos e sistemas de alerta que cheguem aos trabalhadores.

Também exige discutir como evitar que a necessidade de interromper o trabalho diante de uma situação de risco resulte em perda de renda.

Entre o planejamento e a execução

Se o problema nas cidades é bem concreto e todos sentimos, por que a resposta ainda não é?

O volume de discussão sobre adaptação está crescendo, mas isso ainda não se traduziu na mesma velocidade em política e ação.

Saville Alves destacou uma mudança observada nos municípios: hoje é mais comum encontrar profissionais e áreas da administração pública dedicados à sustentabilidade e às questões climáticas.

Esse avanço é importante, mas ainda existe distância entre reconhecer o risco e construir capacidade para responder a ele.

A adaptação exige coordenação entre áreas que tradicionalmente trabalham separadas. Calor extremo envolve saúde, trabalho, assistência social, planejamento urbano e meio ambiente. Enchentes afetam mobilidade, drenagem, defesa civil, habitação e gestão de resíduos.

Na prática, uma cooperativa pode fazer parte da política municipal de coleta seletiva sem estar integrada ao mapeamento de áreas sujeitas a inundações ou temperaturas extremas.

É possível aproximar essas informações e tornar os dados climáticos mais úteis para a gestão pública. Além de saber onde há maior risco de calor ou inundação, é possível identificar quais cooperativas estão nesses locais, quais rotas podem ser interrompidas e quais adaptações são prioritárias.

Também reforça a importância de combinar dados técnicos com o conhecimento dos próprios trabalhadores. Mapas e previsões mostram parte do risco. Quem atua diariamente no território conhece problemas que nem sempre aparecem nas bases oficiais, como locais de entrada da água, horários de maior calor nos galpões ou trechos de difícil circulação em períodos de chuva.

O capital existe, mas o acesso ainda é desigual

Bruna Constantino, da Positive Ventures, trouxe para o painel a perspectiva do investimento de impacto e destacou que existe capital disponível interessado em projetos com resultados socioambientais.

Foi complementada pela mesa de que nem sempre as cooperativas e organizações que atuam na ponta conseguem acessar esses recursos.

Um exemplo debatido foi a Lei de Incentivo à Reciclagem, que ajuda a mostrar a dimensão dessa demanda. Em 2025, o mecanismo recebeu 952 projetos de 26 estados, que juntos solicitaram R$ 2,2 bilhões em investimentos.

Segundo Carioca, apenas quatro projetos conseguiram efetivamente captar recursos.

Isso não é um problema de mérito dos projetos. Atividades de elaboração de projeto, orçamento, documentação, indicadores, relacionamento com financiadores e prestação de contas exigem capacidade técnica e pessoas dedicadas. Muitas cooperativas precisam realizá-las ao mesmo tempo em que mantêm a operação cotidiana.

Por isso, ampliar o financiamento da reciclagem também passa por fortalecer a capacidade das organizações de acessar esses recursos.

Entre as possibilidades discutidas estão assistência técnica para elaboração de projetos, apoio à captação e prestação de contas, além de investimentos que incorporem a adaptação climática à infraestrutura das cooperativas - ventilação, drenagem, cobertura térmica, armazenamento protegido e sistemas de alerta, por exemplo, podem reduzir tanto a exposição dos trabalhadores quanto as perdas econômicas causadas por eventos extremos.

O que o debate indica para a economia circular

O painel apontou três frentes que precisam avançar de forma conjunta.

- A primeira é aproximar adaptação climática e proteção do trabalho. A discussão sobre resiliência deve considerar saúde, condições de trabalho e efeitos dos eventos extremos sobre a renda.

- A segunda é reconhecer e regularizar o trabalho dos catadores e estruturar a coleta seletiva de forma que sejam reconhecidos e valorizados como infraestrutura de adaptação climática urbana.

- A terceira é reduzir a distância entre financiamento e capacidade de execução. Recursos para a economia circular precisam considerar não apenas equipamentos e produtividade, mas também a estrutura necessária para que cooperativas consigam acessar investimentos e se adaptar aos riscos climáticos.

Nesse contexto, a eureciclo e a Positive Ventures anunciaram durante o painel uma iniciativa com a 2X Global voltada à conexão entre clima, gênero e inclusão produtiva na cadeia da reciclagem.

A discussão realizada na SP Climate Week mostrou que a resiliência da reciclagem depende de olhar para toda a cadeia.

Metas de circularidade e volumes recuperados continuam importantes, mas não são suficientes para avaliar a sustentabilidade do sistema. É necessário considerar também as condições de trabalho e a capacidade de cooperativas e trabalhadores enfrentarem eventos climáticos cada vez mais frequentes.

Por trás de cada material recuperado existe uma rede de pessoas, infraestrutura e decisões.

Fortalecer a economia circular diante da crise significa também reduzir a vulnerabilidade de quem mantém essa cadeia funcionando mesmo quando o clima muda.

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