A nova era da reciclagem: oportunidades para a certificação de PCR na economia brasileira
O ecossistema brasileiro de reciclagem atingiu um novo patamar de maturidade com a assinatura do Decreto do Plástico (nº 12.688/2025), que estabelece o percentual mínimo de 22% de resina pós-consumo (PCR) (40% até 2040), com vigência a partir deste ano e reporte para 2027. O principal valor e diferencial competitivo do uso de PCR é simples e direto: ele substitui resina virgem por matéria-prima secundária e cria demanda real para o pós-consumo. E por que isso importa tanto?
Primeiro, porque reduz a dependência de recursos fósseis não renováveis e a demanda por novos plásticos. Também significa menor pegada de carbono já que o processo evita etapas mais intensas da cadeia petroquímica.
Segundo, porque contribui para a diminuição do rejeito: quando existe cadeia, valor e comprador para a resina, aumenta a chance do plástico pós consumo ser coletado, triado e reciclado, reduzindo o envio para aterros e o risco de vazamento para o ambiente.
Terceiro, porque ele movimenta a economia circular e todo o sistema.
O desafio agora é converter obrigatoriedade em conformidade.
Para isso, o PCR não deve ser tratado apenas como uma troca de matéria-prima, mas como um projeto de transição estruturado, com metodologia e governança. Antes de escolher uma resina ou embalagem com PCR, é necessário um diagnóstico do portfólio e definição de uma estratégia para o atingimento da meta, levando em conta, para cada produto e embalagem, suas especificidades e grau de complexidade para implementação.
O avanço depende de três pontos: adequação técnica, viabilidade de cadeia e comprovação para reporte. A adequação técnica garante que o material funcionará com estabilidade e irá atender aos requisitos reais da aplicação para evitar instabilidade, retrabalho e perda de qualidade. A viabilidade de cadeia é o que traz previsibilidade e escala. A certificação é importante pois rastreia a cadeia, fecha a conta dos volumes e formaliza o percentual incorporado.
Para isso, há uma trilha técnica (rotas industriais consolidadas de reciclagem mecânica) e documental capaz de comprovar origem, lote, volume e percentual incorporado de PCR nas composições. A vantagem é reduzir risco e custo e conferir segurança jurídica e reputacional. Quando o parceiro não só orienta, mas também fornece a resina e/ou a embalagem com PCR certificado, a empresa evita meses de tentativa e erro para ajustar especificação e evidências. O ganho não está apenas na velocidade, mas na redução de risco, do custo de transição e da incerteza regulatória, trazendo mais segurança jurídica e reputacional para a marca.
Alguns números demonstram o sucesso da cadeia bem estruturada da resina PET PCR (rPET) no mercado brasileiro: segundo pesquisa setorial publicada em 2025 pela Associação Brasileira da Indústria do Plástico (ABIPLAST), embora o PET represente apenas cerca de 7% de resina plástica consumida no Brasil, o rPET responde por 40% do total de resinas pós-consumo reciclada. A Associação Brasileira da Indústria do Plástico (ABIPET) indica que, em 2024, foram recicladas 410 mil toneladas de PET, o equivalente a 53% das embalagens descartadas pelos consumidores. Entre as principais aplicações do rPET destacam-se pré-formas e garrafas, com 37% do total reciclado, reforçando o protagonismo do setor de embalagens nesse mercado.
Esse novo cenário demanda que os tomadores de decisão políticos e corporativos garantam a origem e a rastreabilidade desse material por meio de mecanismos tecnicamente robustos. Com isso, a solidez desse novo mercado não depende apenas de oferta e demanda, mas também da forma como a integridade do sistema é validada. A verdadeira segurança jurídica e ambiental para as empresas não advém de uma chancela única, mas de metodologias que consigam aferir com precisão o fluxo físico e financeiro do resíduo. Em um contexto cada vez mais volátil e dinâmico, a certificação deixa de ser apenas um complemento e passa a ocupar papel central ao dar transparência ao dado, verificabilidade à cadeia e segurança ao compliance. Ao garantir que os investimentos do setor privado estejam fundamentados em dados auditáveis por entidades de terceira parte, a certificação protege a reputação das empresas contra o greenwashing e oferece ao Estado os mecanismos necessários para monitorar a transição econômica.
A implementação rigorosa deste decreto, apoiada por certificadoras independentes de confiança, formaliza a cadeia de resíduos e atrai investimentos estrangeiros alinhados aos padrões de governança da OCDE, mitigando a volatilidade jurídica. A adaptação ao novo cenário regulatório é mais do que uma obrigação legal: é parte da construção de uma indústria brasileira mais competitiva, rastreável e preparada para a transição para uma economia de baixo carbono. Quando a conformidade é conduzida com transparência e capacidade de escala, ela deixa de ser apenas uma resposta à regulação e passa a funcionar como vetor de eficiência e acesso a mercados.
Diante do panorama, soluções como as da eureciclo ganham relevância ao conectar viabilidade técnica, construção de especificações, fornecimento com PCR e mecanismos de comprovação, ajudando a reduzir a distância entre meta regulatória e execução industrial. Isso permite que empresas de diferentes portes reduzam barreiras de entrada e possam avançar com mais segurança rumo a um mercado mais sustentável.
O ponto central, portanto, não é apenas conformidade, mas a escolha da via mais transparente, escalável e aderente à realidade produtiva e social do país.
A circularidade, por definição, depende da coordenação entre oferta, demanda, rastreabilidade, validação e confiança entre os elos. Reduzi-la a uma lógica de controle único é enfraquecer justamente o que sustenta sua escala. Fortalecer a indústria brasileira, nesse cenário, significa ampliar sua capacidade de cumprir a regulação com integridade, desenvolver cadeias mais robustas e transformar exigência ambiental em vantagem competitiva. É assim que o PCR deixa de ser apenas uma obrigação de compliance e passa a ocupar um papel estratégico na construção de um Brasil que recicla com eficiência, competitividade e visão de longo prazo.
Por Aline Tiemi Sugano-Segura, Doutora em Sustentabilidade pela Universidade Federal do ABC (UFABC), Engenheira de Materiais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), é especialista em economia circular e embalagens na eureciclo.
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